Conviver é preciso;
morrer não é preciso! Digo isso, parafraseando o general romano Pompeu,
106-48 a.C., aos amedrontados pedestres e motoristas de veículos automotores
que se recusam a enfrentar o desafio de conviver em coletividade. Preferem
reagir agressivamente a qualquer contrariedade de sua vontade, a qualquer
pisada no pé, não permitindo que as qualidades sobressaiam aos defeitos,
ambos inerentes aos temperamentos. Facilmente se rendem ao instinto natural
do ser humano de revidar à menor provocação.
Como “galos de
briga”, os homens desprezam a tolerância e partem raivosos para cima um do
outro, colhendo muitas vezes como fruto de seus desatinos a própria morte,
ou a de terceiros que apenas seguiam o mesmo caminho na via sem saber que
seriam vítimas da intolerância.
Realçar as
qualidades sem ignorar os defeitos, e fazer com que a paciência e a
tolerância sejam condutores do comportamento, é o desafio da educação no
trânsito para que as agressões decorrentes das variações do humor de
pedestres e motoristas de carros, ônibus, caminhões e motocicletas cessem de
abreviar a vida de pessoas que, bem ou mal, percorrem o mesmo trajeto no
trânsito.
Morrer não é
necessário! Necessário é viver para que o propósito do tempo complete em
cada fase da existência: a criança cresça, o adolescente resplandeça e o
adulto amadureça sendo exemplo para os mais novos.
O sentimento
machista da personalidade do homem tem cegado sua visão. Não o tem deixado
enxergar a importância de obedecer às regras para se ter uma convivência
pacífica na vida, notadamente no trânsito, e alcançar a desejada
longevidade. O orgulho em achar que precisa provar algo a alguém ou mostrar
que não leva desaforo para casa, tem feito pais não retornarem aos seus
lares e jovens verem seus sonhos virarem pó.
Os atos de
violência no trânsito geralmente decorrem de discussões por motivos fúteis
como manobras erradas, ultrapassagens indevidas, “fechadas”, buzinadas,
pequenas colisões, xingamentos. Não se respeita nem a presença de mulheres e
crianças no veículo, que são agredidas e humilhadas pela fúria de homens
enlouquecidos, chutadores de portas e quebradores de retrovisores, armados
para dar vazão à arrogância de seus temperamentos.
O Conselho Nacional
de Trânsito – Contran, em defesa da vida (§5º do Art. 1º do CTB), distinguiu
a Educação no Trânsito como tema para a Semana Nacional de Trânsito
de 2009, que se propõe a abordar a importância da educação na formação do
caráter do condutor de veículos, a qual deve começar já no ensino
fundamental, nos primeiros anos de vida da criança.
Não há estatísticas
que consagrem esse tipo de comportamento no trânsito. Mas, com base no
noticiário, depreende-se que o ciclo da vida humana tem sido interrompido
muito cedo. Há jovens motoristas que morrem por não conseguirem conviver com
as provocações nas ruas. Há pessoas, consideradas por todos como calmas, que
se transformam em verdadeiros “Patetas no trânsito” quando estão diante do
volante de seu carro. Há outras que tardiamente se arrependem de seus atos
agressivos, mas há as inteligentes que se arrependem no momento da ira por
se lembrarem que existe alguém que as ama esperando em casa, ou por verem o
desespero de esposas e filhos assentados no carro como passageiros da
agonia.
A morte em
discussões no trânsito é apenas uma das pontas do iceberg da violência que
rasga o casco desta grande nação brasileira. Não se consegue mais tapar os
buracos com as mãos ou tirar a água com latas. É preciso derreter o gelo da
cara feia com o calor da compreensão, da gentileza, da solidariedade, da
amizade, do respeito.
Resistir às
ofensas, evitando o confronto com o ofensor mesmo estando coberto de razões,
não é sinal de covardia, mas característica de hombridade. É portar-se como
o Homem que deu a outra face ao que lhe agredia e deixou sua roupa do corpo
para quem lhe quisesse tomar. Fez isso não para salvar sua vida, mas por
pensar na vida dos outros que seguiriam o seu caminho.
Não é fácil
proceder assim. Mas uma educação dirigida para o trânsito, por meio da
disseminação de valores e bons costumes, fará com que as qualidades
sobressaiam na formação do caráter cidadão da criança e no amadurecimento da
personalidade do adulto. Conviver é preciso! É questão de sobrevivência!
Carlos Alberto
Ferreira dos Santos
Membro do Conselho
Nacional de Trânsito
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